quinta-feira, 4 de março de 2010

Gentileza no Japão

Se eu fosse escolher três características para atribuir aos japoneses, uma delas seria gentileza. Por trás das caras fechadas nos trens e ônibus, via de regra se escondem pessoas gentis sob uma couraça tímida e reservada.

São inúmeros os casos de gentileza e disponibilidade que ocorreram comigo e alguns deles vou descrever aqui:

- primeiro dia de trem, perdido em Nishi-Nippori: pegamos o trem errado e fomos parar em Nishi-Nippori, não em Nippori. Não entendíamos a diferença e não conseguimos conversar com os caixas do ticket office, que simplesmente entenderam que queríamos ir para a estação Tokyo e nos mostravam o preço 160. Depois de uns dez minutos em dúvida na estação vazia, um japonês se aproxima e pergunta se precisávamos de ajuda. Ele nos serviu de guia e tradutor, nos ajudando no pagamento da diferença (70¥) e nos levando até o trem correto, o que tomou dele seguramente uns quinze minutos!

- moça da Ntt Docomo (telefonia móvel) em loja de eletrônicos de Akihabara: entrei numa loja gigante para olhar câmeras mas resolvi comprar uma capa pro meu celular. Uma representante da Ntt Docomo se aproxima e me cumprimenta oferecendo ajuda. Pergunto das câmeras e ela olha no mapa da loja e me mostra onde é. Depois pergunto se posso pagar a capa no outro andar e ela se desculpa mas diz que não. Depois que eu pago e caminho para outra saída, ela me procura e me acompanha atenciosamente até o acesso à parte de câmeras. Passo mais tarde lá e ela me cumprimenta com sorriso mesmo estando naqueles alto-falantes em guerra com a vendedora da Softbank.

- vendedor de hashi em tenda no parque Ueno: este senhor não falava nada de inglês. No entanto, me cumprimentou e atenciosamente me explicou por mímica o preço dos hashi. Eu também tentei falar palavras em japonês para confirmar as informações e ao final ele me perguntou: "american?". Eu respondi "burajiro desu" e ele sorriu, falou nomes de pessoas e lugares do Brasil e ainda me ofereceu um souvenir de "puresento"!

- Tanaka san, vendedor de câmera na loja Sofmap: o senhor Tanaka é um vendedor simpatissíssimo da ótima loja Sofmap em Akihabara. Mais do que isso, ele é a cara do graaaande Dr. Harada (Harada-san), um dos meu ídolos no trabalho, e talvez isso tenha aumentado a simpatia imediata que senti por ele. Pedi ajuda para ele a respeito de câmeras SLR mas ele não falava nada em inglês, nada mesmo. Ainda assim ele conversou comigo e tentou se expressar por meia hora. Ele me explicou o sistema de pontos da loja (converte X% das compras em bônus para novas compras) sempre olhando o meu lado. Ele me mostrou que pontos eram melhor do que duty free para mim e ainda se dispos a (1) fazer o cartão na hora, (2) pegar um produto em outra seção para mim, (3) testar a câmera e ajustar configurações básicas e (4) me dar descontos e brindes. Eu tinha olhado preços no kakaku.com (um buscape "turbinado" japonês) e a negociação ainda ficou um pouco melhor. Mais de uma hora depois fechei a compra e saí maravilhado com a atenção dele (e quem conhece Akihabara sabe como é cheio aquele lugar).

Por outro lado, não me lembro de ter sido tratado com frieza mais do que duas vezes, ambas no comércio. O saldo é extremamente positivo e deixo o Japão encantado com tudo e com todos. E olha que a barreira da língua é fortíssima aqui (a mais forte que já enfrentei): consegui conversar normalmente em inglês com pouquíssimos japoneses.

Para terminar, um ditado e uma frase de um vendedor usbeque que conheci na Laox Akihabara.
O ditado diz muito sobre a cultura japonesa: "Minoru hodo atamano sagaru inahokana" (A espiga de arroz, quanto mais carregada, mais se inclina). Todos são muito atenciosos, desde o mais humilde atendente até o diretor do centro de pesquisa policial onde faço o curso.

A frase do vendedor, me explicando porque não tinha problema para ele ficar tanto tempo me dando atenção se eu não ia comprar nada, apenas aguardava colegas: "nosso chefe nos ensinou assim que fomos contratados: os visitantes das lojas são primeiro amigos depois clientes". Isso me faz pensar num vendedor tipicamente americano da Bestbuy Miami...

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